A Terra é dominada por aproximadamente 20 quatrilhões de formigas – um número impressionante que sublinha o seu sucesso ecológico e evolutivo. Pesquisas recentes sugerem que esse domínio não se deve a características individuais superiores, mas sim a uma compensação deliberada: as formigas evoluíram para priorizar o tamanho da colônia em detrimento da robustez individual, sacrificando efetivamente a força individual pelo poder coletivo.
O trade-off evolutivo: quantidade x qualidade
Um novo estudo, publicado na Science Advances, examina como os exoesqueletos das formigas revelam esta estratégia. As formigas possuem uma cutícula – uma camada externa protetora – que requer recursos substanciais para mantê-la, especialmente nitrogênio e minerais essenciais. Cutículas mais espessas oferecem melhor proteção, mas exigem mais nutrientes, limitando potencialmente o crescimento das colônias. Os pesquisadores encontraram uma correlação clara: espécies com cutículas mais finas e menos intensivas em nutrientes tendem a formar colônias maiores.
Não se trata apenas de bugs. O mesmo princípio se aplica a toda a biologia. À medida que as sociedades se tornam mais complexas, os indivíduos podem tornar-se mais simples porque o esforço colectivo substitui os fardos individuais. As formigas demonstram isso claramente ao reduzir o investimento nas suas próprias estruturas de proteção para maximizar o potencial da força de trabalho.
Como menos proteção leva a maior sucesso
Os pesquisadores analisaram radiografias 3D de mais de 500 espécies de formigas, descobrindo que a proporção entre cutícula e massa corporal varia amplamente (de 6% a 35%). As formigas com menos suporte de cutícula parecem mais adaptáveis, permitindo-lhes potencialmente colonizar novos habitats com recursos limitados.
“Exigir menos nitrogênio poderia torná-los mais versáteis e capazes de conquistar novos ambientes”, explicou o entomologista Arthur Matte.
Esta compensação destaca uma dinâmica evolutiva central: o que beneficia a colónia nem sempre beneficia o indivíduo. Apesar do aumento da vulnerabilidade, as colónias maiores oferecem uma defesa mais forte, um controlo de doenças mais eficiente e uma maior resiliência global. Este ciclo de feedback impulsionou a evolução das formigas durante milénios.
Implicações além dos insetos
O princípio de priorizar a quantidade em detrimento da qualidade não se limita ao mundo dos insetos. Ecoa também nos sistemas humanos, desde a alocação de recursos na produção de alimentos até à distribuição de esforços em organizações complexas.
O estudo reforça uma verdade biológica fundamental: a evolução muitas vezes favorece a força coletiva em detrimento da perfeição individual. As formigas não conquistaram a Terra através de proezas individuais superiores; eles fizeram isso tornando-se uma força de trabalho distribuída e altamente eficiente, onde o todo é maior do que a soma das partes.
