A febre do Velho Oeste que cativou Paris

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Paris não se importou muito com o espetáculo inicial. Em 1889, milhares de espectadores compareceram à Feira Mundial. Eles trouxeram o presidente e sua esposa também.

A atração? Búfalo Bill Cody. Seu show já havia destruído Londres em 1887 e aterrorizado o público nos Estados Unidos com seu barulho bruto e energia caótica.

O público francês estava cético. Frio mesmo. Os resgates da diligência não significaram nada para eles. Os guerreiros Lakota Sioux cavalgando pela arena não acertaram um golpe contra a reserva da multidão. Não conectou.

Então veio Annie Oakley.

Ela apareceu. Ela puxou o gatilho. Bolas de vidro se estilhaçaram no ar. Um após o outro. Quando a arma ficou quente, ela a jogou como se fosse uma marca e pegou a próxima. Foi quando eles acordaram. O público explodiu. O ceticismo evaporou. No dia seguinte, o Paris Herald classificou-o como um “grande sucesso em todos os sentidos”. Em poucas semanas, a cidade teve a “Febre do Velho Oeste”.

O Apelo do “Outro”

Na década de 1880, o oeste americano havia desaparecido. Apagado pela política federal contra os nativos americanos. Existia apenas como uma peça nostálgica. Uma fantasia de “nobres pioneiros” e “selvagens”.

Os europeus compraram o mito.

Os parisienses eram fascinados pelos “índios primitivos”. Os povos indígenas desfilaram por Paris durante décadas. Às vezes como atores. Às vezes, como exposições ao vivo nos jardins zoológicos. Naquele mesmo ano, quase 400 indivíduos das colônias francesas viviam no recinto da feira como espécimes científicos. Os primeiros antropólogos os viam através do darwinismo social. Eles viram uma escada que levava da selvageria à civilização e colocaram esses humanos na base.

Os parisienses “tinham ouvido falar dos índios americanos, mas o Wild West Show os trouxe bem na sua frente”, diz Steve Friesen, autor de Galloping Gourmet e ex-diretor do Museu Buffalo Bill. “Eles viram o negócio real. Eles ficaram surpresos.”

Jovens mulheres parisienses reuniram-se no “Acampamento Indiano”, onde viviam os artistas. Era um espaço público. Eles disputaram uma posição na esperança de chamar a atenção dos belos guerreiros Sioux que lhes ofereciam cigarros e sorrisos tímidos. Os homens permaneciam por perto para obter habilidades com cavalos e talentos de tiro.

A economia seguiu. Chapéus de cowboy esgotados. As selas desapareceram das prateleiras. A pipoca que os franceses nunca tinham tocado tornou-se um vício.

“Em outubro”, observa Friesen, “os parisienses iam ao teatro só para comer pipoca”.

Cody se tornou Paris

Cody – Guillaume Buffalo para seus novos fãs – foi o produto perfeito. Em casa ele já era enorme. Um ex-batedor e cavaleiro com reivindicações de serviço Pony Express. Ele parecia bem também.

Em Paris ele se tornou realeza. Todos queriam uma reunião.

Cody e sua trupe não se limitaram a atuar. Eles percorreram a cidade. Eles escalaram a nova Torre Eiffel. Eles apareceram nos cinemas. Durante seis meses, eles realizaram shows duas vezes por dia em uma arena com capacidade para 30.000 pessoas, que às vezes superava as principais exposições da Feira.

A comunidade artística também pegou o vírus. Paul Gauguin adorou tanto que compareceu duas vezes. Ele comprou um Stetson. Mais tarde, ele usou um chapéu quase idêntico em um autorretrato do Taiti, agora no Musée d’Orsay.

Edvard Munch visitou. Rosa Bonheur pintou os artistas do acampamento.

Cody também conheceu Thomas Edison. Edison estava lá demonstrando tecnologia elétrica. Anos mais tarde, ele colocou Cody e seus colaboradores Lakota em filme em alguns dos primeiros filmes.

O legado permanece

Buffalo Bill foi o primeiro guia da França para o mito do oeste americano. O apelo não foi temporário. Em 1905, quando a turnê voltou, reacendeu a febre que havia atingido o pico dezesseis anos antes.

A mancha cultural é permanente.

“Buffalo Bill basicamente disse à França como era o Ocidente”, argumenta Friesen. “Ele pegou.”

A moda francesa adotou o visual. As mulheres começaram a combinar chapéus de cowboy com saias – um estilo característico de Annie Oakley que começou aí. Lojas que vendem equipamentos ocidentais ainda existem hoje.

Até redes de restaurantes usam a iconografia. Buffalo Grill, uma churrascaria francesa, apresenta um retrato de Cody em seu logotipo.

Quando a Disneyland Paris foi inaugurada no início dos anos 90, os céticos duvidaram do conceito. Um elemento funcionou bem. Muito bem.

O Disney Village abrigou uma imitação de show do Velho Oeste. Dois mil lugares. Duas vezes ao dia. O cardápio incluía pão de milho e bife. O público recebeu chapéus de cowboy de palha.

“Eles assistiram apresentações no estilo Buffalo Bill”, explica Friesen. “Continuou.”

O reconhecimento da marca sobreviveu até a década de 2000.

Parece que Paris nunca deixou o Ocidente ir.

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